Hoje me deparei com um blog "católico". Daqui a pouco explico as aspas. O interessante é que uma das discussões (claro... tão previsível) era um clip da Lady Gaga. O tal do Alejandro. O título, se não me engano era "Você é cristão e curte Lady gaga? Consegue?".
A discussão se arrasta desde o ano passado. Me diverto com os comentários e a quantidade de absurdos dos quais as pessoas são capazes. Uns mais emocionais, outros menos. O grande mediador da discussão em vários momentos tenta passar uma imagem de "Sim, tenho opinião formada sobre tal assunto mas sou imparcial". No entanto, por trás desse disfarce de frieza e racionalidade (na verdade, pseudo-racionalidade), se esconde um sarcasmo ferino, uma vontade lancinante de ferir e uma arrogância que não dá trégua. É visível. Até aí tudo bem, todos tem direito a opiniões, sejam elas fervorosas ou não. O que me espanta é a incapacidade de discernimento (disfarçada de "Luz católica") entre fé e arte. Aí entram aquelas discussões infindáveis, do tipo "Esse clip ataca nossos valores cristãos" e blá blá blá. Na verdade, nós é que nos sentimos atacdos com as coisas, na medida em que nos é conveniente, é claro. Tem os que atacam o dono do blog com as acusações de pedofilia que ocorrem na Igreja, ao que ele defende argumentando (e com razão) que a má conduta de uma minoria não mancha, absolutamente, o nome de toda uma Instituição de dois milênios. No entanto, como dizia um antigo professor meu de Filosofia, na Faculdade, "Em um dia Helena de Tróia pode ser defendida e no dia seguinte atacada, tendo como base de discurso os mesmos elementos, tanto para a acusação quanto para a defesa". Então, quer dizer, o poder da retórica, teoricamente, é infinito. E o que serve pra um serve pro outro. Lady Gaga também é minoria que não mancha a instituição "Cultura pop americana".
Em segundo lugar, já que temos o dom do discernimento, podemos perfeitamente separar o joio do trigo. Argumento irracional é "Não gosto de Lady Gaga ou dos clips que ela faz porque são contra meus princípios e valores cristãos". Quanta besteira... posso sim, gostar dela, enquanto artista e não me importa nem que ela seja satanista! Não estou dizendo que seja... estarei apreciando Música e não me casando com ela, afinal de contas... e mais uma vez, quando o argumento se volta contra o feiticeiro, aí já não é válido. Exemplo: certa vez, disse que não me agradava a ideia de que a Igreja tivesse um Papa que tenha pertencido à SS nazista e o que uma fanática religiosa me respondeu foi "Isso não faz a menor diferença para nós católicos nem para a Santa Igreja". Engraçado, não? Quando é arte, faz diferença e "sim, nossas escolhas pessoais de arte e artistas medem nossa fé, ou o quanto de fortaleza espiritual nós temos". Mas quando é com o papa não faz a menor diferença...
Sou músico profissional e católico praticante. Estudei e fui treinado para analisar tecnicamente e saber o que tem qualidade e o que não tem. Particularmente não gosto da música de Lady Gaga, acho que ela não tem nada de original nem grandes coisas a oferecer em termos musicais.Mas minha não preferência por ela nada tem a ver com religião nem nunca vai ter! Era só o que faltava, meus gostos musicais e artísticos serem ditados pelo Vaticano! Apenas gosto de "Bad romance", acho que a melodia é interessante. Para a juventude, é empolgante. Sou professor e tenho alunos adolescentes. Vou contar uma história sobre essa música, em particular.
Estava na Biblioteca da Instituição para a qual eu trabalho quando comecei a escutar certa melodia na Flauta Doce. Era "Bad romance" e eu sequer fazia ideia. Admito minha (ainda) enorme ignorância em música pop americana. Fui saber, pouco tempo depois que as crianças haviam pedido ao meu chefe (que é também professor de Música) para ensinar a elas o tal do "Bad romance". Ele conseguiu o playback, instalou no teclado e conseguiu a partitura. Nossas crianças lêem partitura. Moral da história: Que é mais importante? Que nossas crianças leiam partitura ou que não toquem "Lady Gaga" porque "é do diabo"? Faça-me o favor...
Vamos abrir nossas mentes, a arte deve estar isenta de julgamentos religiosos, porque a arte, por si só não é perniciosa. Sendo boa arte ou não. O que fazemos com ela, ou deixamos de fazer, aí sim, pode ou não ser pernicioso. Não estou dizendo que haja arte neutra. Até existe sim, mas não necessariamente a arte tem que ser neutra. Muitas vezes vem, sim, carregada de algum conteúdo tendencioso. E entenda-se "tendencioso" não como termo pejorativo, mas simplesmente como palavra que quer dizer que "tende a alguma coisa ou ideia". Se não somos capazes de sequer usufruir de uma obra de arte sem se deixar, necessariamente se influenciar por ela, então não temos discernimento algum! Que poder é esse que temos de escolher entre o Bem e o Mal (representado pelo mito "Adão e Eva") se sequer podemos nos aproximar de um livro, uma música ou uma pintura porque temos medo que nossos pseudo valores católicos sejam "contaminados" por essas obras de arte?! Que tem que ver arte com religião?
Se não tivermos o discernimeno de separar nossas emoções religiosas da liberdade de expressão, incorremos na velha sensura! E a História já provou (e prova) que sensura (essa sim) é perniciosa! Claro que não estou falando de extremos! Se uma pessoa sai de casa sem roupa, por exemplo (e não entra aqui a discussão se isso é válido ou não, certo ou não) ela, a meu ver, deve sim, ser SENSURADA por essa ação sem cabimento. Porque não há necessidade de chocar a esse nível para protestar contra alguma coisa. Porque fazer isso quando a palavra é tão mais poderosa e tão mais abrangente? Bem verdade é que fanáticos (principalmente religiosos) não são flexíveis nem mesmo diante de um bom argumento. Com eles, quase nunca palavras são suficientes.
Não me importo nem um pouco com essas opiniões fanáticas, elas, em certa medida, geram uma discussão necessária. Nem sempre saudável, mas necessária. O meu medo é que alguma dessas pessoas assuma o poder. Um poder maior, cargo político mesmo. Enquanto estiverem lá, em seus blogzinhos, discutindo o sexo dos anjos com outros fanáticos, até aí são inofensivos. O famoso "maluco beleza".
A linha entre censura e ditadura é muito tênue. Aliás, a sensura é um dos principais instrumentos de uma ditadura. Eu sou um ditador e SEI o que é melhor pro meu povo, SEI o que fará mal às suas pobres mentes fracas e SEI que Lady Gaga é anticristo. Então, eu, que sou ditador e SEI o que é melhor pro meu povo, proíbo todos os meios de comunicação (incluindo internet, é claro ) de publicarem qualquer coisa dessa artista americana. Acha impossível de acontecer? Dê uma olhada na China, o Google está sendo sensurado em vários temas. O governo chinês proíbe que seu povo conheça a parte podre da História chinesa.
O Brasil, graças a Deus é um país laico e democrático. E levamos muito, muito tempo até conquistarmos essa liberdade, conseguida a custo de muito derramamento de sangue. Derramamento esse que aconteceu até bem pouco tempo atrás, durante a ditadura militar. Não podemos dar um passo atrás agora. Vou além. A Humanidade precisa se livrar dessa ideia imbecil de que arte deve estar associada a "valores éticos cristãos". Se for assim, vamos banir praticamente 95% das obras de arte que há no mundo! Vamos banir praticamente 99% da expressão artística mundial! Porque em tudo se encontrará (sob esse olharzinho medíocre e fanático, é claro) perversões aos "valores católicos"... ora... comecemos pelo romantismo literário brasileiro. "Senhora", de José de Alencar. Vai pra fogueira. Fala de prostituição, etc. Dom Casmurro, de Machado de Assis. Nem precisa dizer nada. Traição, dúvida, etc. Fogueira! Eça de Queiroz, putz! Alta ameaça... Fogueira! Chega... não é ridículo isso... Bach era Luterano. Bem, segundo a lógica fanática, toda a vida dele se pauta em valóres anti-católicos, portanto "estamos, a partir de agora, proibidos de ouvir a música de Bach".
Há alguns anos, um artísta plástico causou muita polêmica ao pintar um quadro onde configurava Nossa Senhora nua diante de um espelho. Houve certa batalha, dentro de mim. Mas felizmente o bom senso prevaleceu. Se eu prego a anti-sensura, não posso quere-la nem exigi-la quando atinge meus próprios valores, isso não seria nada coerente. Como católico, sim, me senti mal com tal atitude e pessoalmente, eu a repudio. Tenho o direito pessoal e inalienável de repudiá-la, mas não tenho o direito de repudiar nem o artista plástico nem as pessoas que gostaram da obra. Em minha opinião, esse artista até pinta razoavelmente bem, mas só quis, nesse caso, se promover, aparecer na mídia. E conseguiu. Imagine, então, se vivêssemos em uma ditadura religiosa, como muitos países do Oriente Médio vivem. Imagine que estivéssemos sob o jugo desses fanáticos desses blogs que promovem essas discussões infindáveis. Posso imaginar o que aconteceria a esse artista que tivesse essa ousadia. Seria, no mínimo, torturado até quase morrer, em nome da "Santa Sé", ou da "Santa Igreja Católica" ou mesmo "Em nome de sua Santidade, o Papa"... sim, porque, torturar ou matar uma pessoa, ou as duas coisas, é perfeitamente cristão quando se tem uma boa justificatica. Aí que mora todo o perigo. Não devemos nunca deixar essas pessoas chegarem ao poder. Infelizmente a possibilidade sempre existe. Na Venezuela, Está aí Chavez para provar que em pleno século XXI, no ocidente, na América, ainda é possível se promover um ditador. Ele acha o que é certo e impõe ao povo.
Desculpe, eu "viajo" muito com essas coisas e perco o foco inicial. Voltando então à vaca fria. Eu, como músico (intérprete) e pesquisador, preciso sempre tomar cuidado para não deixar a emoção tomar conta. Para não deixar minhas convicções pessoais e religiosas tomarem conta de meu discernimento. Tento ser o mais imparcial possível (o que é muito difícil, algumas vezes) para distorcer o menos possível.
Me iniciei na Música aos sete anos de idade. Hoje tenho 26. Há mais ou menos dez anos atrás, quando eu escutava uma música, eu a julgava com poucos critérios, pois não tinha ainda a bagagem que tenho hoje. Eram poucos os critérios e muitos deles, tendenciosos (e agora sim, uso a palavra em seu sentido negativo). Basicamente, se a música me agradava ou não, era esse meu critério. Comecei, com o tempo, a admitir que, ainda que eu não gostasse de uma música, ela poderia ter qualidade técnica. Certa vez, escutando no pátio de meu antigo colégio uma música de um grupo ridículo, que jé nem existe mais, um professor meu de Música me disse que a música é boa ou ruim dependendo do arranjo. Estávamos caminhando juntos e escutando a tal música no pátio. Na época eu tinha uns quatorze anos. Discordei veementemente dele. Para mim, que era bem mais radical nessa época, uma música simplesmente era boa ou ruim. Só anos depois compreendi, de fato, o que ele quis dizer com aquilo. Hoje em dia analiso a música em si (linha melódica, harmonia, condução de vozes, textura, tecitura, arranjo, artistas que a executam, como ela é executada, etc) e o impacto que ela causa na sociedade. Tive que abrir minha cabeça a machadada para reconhecer o valor do funk. Imagine alguém que tenha tido uma vida inteira uma formação musical voltada aos grandes mestres da Música Universal (Bach, Beethoven, Mozart, Wagner, Chopin, Chiquinha Gonzaga, Ernesto nazareth, etc) e de repente, precisa admitir o valor do funk, como música. Como pesquisador, educador e músico, precisei fazer isso. Mas aí é que está. Lembra daquele exemplo de sair peladão na rua? Pois é. Tudo tem um limite. Eu tenho e respeito meus limites e me faço respeitar em meus limites.Ser contra a sensura não quer dizer ser amoral. Então, proibidão para mim é lixo, apologia ao crime, é puro lixo e nada mais. No entanto, o funk, em si (os mais antigos, melody) tem seu valor e impacto positivo em uma determinada parcela da sociedade. Uma parecela menos favorecida. Atualmente,na verdade, nem é mais assim, está em todos os setores da sociedade. Mas isso são outros quinhentos. Tive que reconhecer que o funk, tendo ritmo e nota musical (sim, há notas musicais, antes que algum equivocado proteste) é música. Ponto final. goste ou não do fato. E o impacto social é impressionante e por vezes, positivo. Para algumas pessoas, libertador. Para outras, significa emprego, trabalho na Música, etc. Sou ferrenhamente contra a exarcebação exagerada e ridícula do funk, em detrimento de outros gêneros musicais. Assim como todos os músicos, populares e/ou eruditos, isso me indigna tanto quanto! mas o fato é que precisei separar as coisas. separar minhas convicções pessoais do que acontece fora de mim!
Esse é o perigo do fanático religioso. Ele não separa e não entende e não quer entender nunca que o mundo não é nem deve ser uma extensão dele próprio nem do clubinho dele. Em sua maioria são extremamente egoístas e pouco se lixam para o que os outros sentem ou pensam. Se pudessem, teriam apenas o que lhes deixa confortáveis "espiritualmente". Temos exemplos de sobra na História da Humanidade. Fanáticos religiosos no poder e Galileu quase foi queimado vivo. Voltou atrás na ideia "absurda" dele de heliocentrismo.
Certa vez, estava assistindo a uma exposição no CCBB com uma pessoa que eu sabia ser religiosa. Passamos por um quadro cujo desenho era o seguinte: Em grafite, vários pênis jorrando sêmem para diversos lados, em esguichos de chafariz. Essa pessoa assim que percebeu do que se tratava fez questão de desviar o olhar dessa obra e disse que não gostou dela nem um pouco. Não me incomodei com isso mas achei graça. É claro que ela estva vendo o quadro com olhinhos de Vaticano e de toda e educação lava cérebro que teve. A velha culpa judaica-cristã do sexo ou tudo referente a ele. Bem, o quadro, a meu ver, era muito bem feito. Sei que a pessoa que estava comigo, só conseguiu ver nele "coisas sujas e pecaminosas". Eu vi uma espécie de celebração da vida ou abundância dela. Os pênis ali, apontados em diversas direções nada mais eram do que símbolos fálicos,símbolos de provedores da vida. Hoje consigo enxergar essas coisas. Há alguns anos também passei por um processo de lavagem cerebral, do qual, graças a Deus, me livrei.
Outra palavra que os fanáticos de plantão adoram é "Revolução". Nem vou me ater muito a isso nesse texto, porque esse tema merece um texto só para ele. Escreverei muito sobre isso em breve. Mas para já, penso que a revolução, de uma maneira geral, seja uma coisa muito boa, porque renova os ares e é graças a ela que a Humanidade tem se livrado do jugo de poderosos e totalitaristas. A História vive de Revoluções. Que bom que as temos!
A meu ver, a Música é uma das faces de Deus. Mais que isso, é uma das formas de encarnação de Deus. Literalmente. Sei que é uma visão muito mítica e nada científica mas é algo que experencio na pele. Um físico diria que Música é simplesmente duas energias combinadas em padrões: Física e Matemática. Mas as coisas geradas na alma, pela Música, são infinitamente maioes do que meros padrões físicos e matemáticos. E como Face de Deus, assume infinitas formas, entre elas, a Música Pop Americana, é claro.
Sem mais, finalizo esse texto que, espero, seja promessa de muitos outros que hão de vir em um futuro muito próximo.
Viva a Música!
Viva a Revolução!
Viva a Arte!
Viva a liberdade de expressão a abaixo a sensura!
Viva o poder de escolha e o dom do discernimento e abaixo sentimentos e pensamentos mesquinhos, castradores e medíocres!